terça-feira, junho 29, 2004

Paixões e Desejos

Um dos melhores blogs de cinema portugueses, o Paixões e Desejos, escreve ao contrário da blogosfera. A blogosfera escreveu Mystic River, depois Lost in Translation, agora Coffee and Cigarettes (pecador me confesso). O Rui escreve The Killing Fields, St. Elmo’s Fire, e quem sabe um dia talvez o encontre na Fnac, com um sorriso na cara, e na mão um The Right Stuff esquecido a preço irrisório.

Coffee and Cigarettes

Beber café e fumar cigarros faz parte da minha vida. Não posso dizer que é um daqueles momentos que marcam, tal a quantidade de vezes que o acto acontece e o automatismo com que o faço. Por vezes, o café sabe-me mal; é mal tirado; é de fraca qualidade. Outras, raras, o corpo pede-me para não fumar mais; o estômago soa o alarme do enjoo; a cabeça dorida acusa o excesso. Geralmente, é apenas reconfortante. A bebida escorre enquanto os olhos passeiam pelo jornal, o fumo rodopia nos pulmões entre politica, futebol, e ambições. Contudo, existem momentos inexplicáveis em que tais actos se tornam inesperadamente deliciosos.
Os outros, aborrecem-me várias vezes. Explicam que o café provoca isto e aquilo; apontam-me o dedo. Outros, colocam na cara o ar reprovador e incomodado quando o fumo circula no ar. Podia tentar explicar-lhes, adjectivar o meu prazer tornado vício. Para quê? É um prazer meu e só meu. São momentos que a mim pertencem. Eu gosto de cafés e cigarros. Os outros que se lixem. Não se explica. Bebe-se e fuma-se.

quinta-feira, junho 24, 2004

Partir a louça

Escrever num blogue de cinema em Portugal é uma mais valia e um caminho para se obter uma saúde de ferro e a carteira recheada. Quanto dinheiro gasta a nossa sociedade em ginásios, anti-depressivos, República Dominicana, e outros, de forma a garantir um bem estar psicológico? A nossa sociedade não saberá que não há melhor para descontrair do que partir algo? Imagine o leitor que está em stress, o trabalho que não pára de acumular, as contas, os desejos, as vontades, as filas, as finanças. Já está? Então agora imagine que lhe colocam um carro à frente e um taco de basebol nas mãos e lhe dizem: Parta ... Imagina já o stress a apagar-se, acompanhado de uma gargalhada saída de um filme de terror? Esqueça. Isso nunca vai acontecer. Portanto, ou cria um blogue de cinema ou regressa à sua vida sofrível. É que aqui, existe um taco chamado teclado, e um carro chamado cinema português. E existe também um Jorge. Invejo-o, pois com um simples taco Storytelling fez um home run. Temos jogador!

Coito interrompido

Existe sempre uma primeira vez para tudo. Ora aqui está uma frase feita, tornada já um chavão, e digna de pertencer a uma antiga lista de expressões a abandonar. Contudo, a frase é correcta e verifica-se diariamente. Por exemplo, existe sempre uma primeira vez para escrever sobre Kevin Smith num blogue de cinema. Existe também sempre uma primeira vez para ir escrever sobre Kevin Smith e não o fazer, não porque não se quer mas porque não se pode. Parece complicado, certo? Eu vou explicar. Mas primeiro, deixei-me falar um pouco sobre argumento. Para quem nunca leu nada sobre este assunto, este texto é a prova que há realmente uma primeira vez.

A maior parte dos filmes são divididos em três actos, desde o tempo dos gregos. De notar que, como tempo dos gregos entendo um passado muito distante e não apenas alguns meses atrás, desde a estreia de Troy. Troy também tem os seus três actos, mas foi escrito por David Benioff, e o artigo é, ou era, sobre Kevin Smith, logo é necessário acabar com a dissertação. O que escreveu este senhor? Por exemplo, Jersey Girl que pode ser encontrado actualmente em qualquer sala de cinema. Também escreveu Clerks, mas isso fica para quando me for possível escrever o que queria. Lembram-se? Umas linhas atrás escrevi que não podia falar sobre o assunto. Ia então falar sobre os três actos, certo? Então vamos a isso, com uma ajuda de algumas palavras em língua inglesa:
Act 1 – Setup: onde se apresenta a personagem principal se estabelecem as bases para a estória que vamos contar. O “onde”, o “quem” e o “quê”, ficam despachados nesta fase do filme.
Act 2 – Confrontation: já repararam que cada vez que o nosso herói atravessa um obstáculo encontra outro mais difícil na sua frente? É o que dói mais a um escritor, e o que mais cativa a audiência. O acto 2, quando bem construído, prende-vos nas cadeiras da sala escura.
Act 3 – Resolution: a esta fase do guião gosto de chamar momento SuperColaTrês. O que se passa por esta altura, e até ao final do filme, fica agarrada ao espectador mesmo quando ele sai da sala. Nostalgia, tristeza, vontade de mudar a vida, cola-se a nós e já não larga. Quando este acto acaba, está na altura de pagar o cartão do parque de estacionamento.
Ora, entre estes três actos existem dois plot points principais. São eles que fazem a estória virar numa direcção diferente, aliás, são eles que fazem tanto a estória como história. O primeiro ocorre em média aos 20 minutos de filme, o segundo por volta dos 90 minutos.

Vamos então pegar num filme e fazer contas. Jersey Girl (do tal Kevin Smith), numa sala do El Corte Inglés, sessão da meia-noite e um quarto. Ora, o que acontecerá quando os ponteiros assinalarem 1:30? Certo! O segundo plot point que envia o filme numa nova e surpreendente direcção. Foi o que aconteceu com o filme em questão, e foi surpreendente. Por momentos pensei ver o melhor momento de cinema de sempre. Um filme de chacha que se transforma numa homenagem ao César Monteiro. O ecrã fica negro, e assim se mantém. Que coragem! Pensei eu. Um realizador que mantém um filme desinteressante até chegar ao segundo plot point para então colocar o ecrã a negro e sem som. Que manifesto contra o cinema de pipoca!
Foi então que entrou uma senhora fardada dizendo que havia um problema com a máquina de projecção e com uns convites para uma sessão à escolha.

Portanto há sempre uma primeira vez para tudo, e esta foi uma delas. A minha dúvida é se foi sorte ou azar. Valerá a pena ver o resto do filme, ou deixar assim os últimos 20 minutos na eterna escuridão? A verdade é que nunca gostei de coitos interrompidos, e também nunca vi uma sessão a começar à 1:30 da manhã. Talvez experimente. Há sempre uma primeira vez. Só é pena já saber de antemão que qualquer orgasmo, por mais pequeno que seja, será impossível. O coito, retomado depois de interrompido, ainda pode ter salvação. Salvo se a girl for realmente horrososa ou de Jersey. Veremos. Inevitavelmente.

domingo, junho 13, 2004

Menos ais

Por vezes, os “autores” escrevem um filme “mau”. Por vezes, quem escreve abusa do uso de aspas. Usam-se as aspas quando queremos dizer algo que não é bem o que escrevemos, numa variante estilística do eu sei que tu sabes que eu sei que tu sabes. Ora, nós sabemos que somos nós que “produzimos” os autores, que os colocamos no “Olimpo” e que esperamos sempre “mais” deles. Chega de aspas, pois eis chegada a altura de dizer as coisas como elas são: The Ladykillers é um filme “mau”. Arre, que lá continuam as aspas! É um filme “mau”, deveras, assim como “maus” são Gangs of New York, Ocean’s Eleven, ou Amistad. Não são filmes “maus” como os verdadeiros filmes maus, mas também não são o que esperamos dos “autores”. E ser “autor” não é fácil, porque os “voyeurs” querem sempre mais, muito mais, menos ais. Mas podemos nós pedir mais? Que direito temos nós, simples abutres sentados, de pedir mais, muito mais, menos ais? A dúvida permanece, alguém que não eu que a responda. Hoje (sábado) vi The Ladykillers. Hoje (sábado) vi Portugal. Menos ais, menos ais, que eu também não fiz muito mais.

quinta-feira, junho 10, 2004

Divulgação, 2

Hoje, dia de Portugal, é também dia de cinema. Quinta-feira passou a ser recentemente o dia das estreias. E que estreias senhores! E que estreias! Numa só semana temos Coffee and Cigarettes e The Ladykillers, filmes que nos enchem de satisfação só por saber que estrearam. Esta semana estreia também um projecto diferente. Os blogs de cinema resolveram juntar-se numa “academia” que viu hoje, oficialmente, a luz do dia. A ABCine tem blogs para todos os gostos, sempre com o cinema como pano de fundo. Blogs com critica, blogs com história, blogs com notícias, blogs com crónicas. Os seus autores partilham a mesma paixão. Existem filmes medianos? Existem. Maus? Também. Péssimos? Certamente. Existe então cinema mau? Não, não pode. O cinema é sempre bom. O que fazem dele é que às vezes não respeita o formato. O formato das emoções audiovisuais em tela grande. Os senhores da “academia” gostam de estar frente a esta tela grande. A ouvir, ver, sentir, e a escrever.

terça-feira, junho 08, 2004

Divulgação

O IndieLisboa pretende ser um observatório privilegiado do que de mais interessante se passa no cinema independente em todo o mundo. Queremos revelar novos filmes e novos cineastas, promover a cultura cinematográfica e alargar os públicos de cinema, possibilitando o encontro destes com um conjunto de filmes que de outra maneira só muito dificilmente (ou tardiamente) teriam entre nós a visibilidade que merecem.

Com uma competição de filmes criteriosamente seleccionados e trazendo a Lisboa realizadores, produtores, jornalistas, críticos, etc., o festival quer afirmar-se nacionalmente de forma clara e também projectar-se internacionalmente.

Procuraremos também que o cinema português tenha uma presença significativa (atribuiremos um prémio específico), tanto mais que são os caminhos do cinema independente que a nossa cinematografia tem trilhado com mais insistência.


O Just a Kiss? vai acompanhar toda a preparação desta primeira edição do IndieLiesboa acompanhando também o festival durante a sua realização, altura em que diariamente se falará aqui de tudo o que está a acontecer. Digamos que o Just a Kiss? será, se me permitem, o blog não-oficial do IndieLisboa.

Que tudo corra pelo melhor ... ou como se diz no mundo do cinema: Muita merda!

domingo, junho 06, 2004

O Milagre Segundo Miguel

Que milagre seria! Que aparição divina! Que estrela de esperança levemente descendo os céus! Do que falo? Do que não acontece numa sala de cinema que projecta um filme português. Não, este texto não será mais uma queixa entre mais público ou melhor crítica; não será um lamento por mais conteúdo e menos forma, ou só forma, ou só conteúdo; não é mais um chorar de dinheiros públicos. Este texto é sobre um milagre. Um milagre que tarda em chegar. Um filme português que seja uma obra completa. Não, também não venho falar de primas. Aliás, nem de primas, nem enteados, nem amigos, e compadres. Venho falar de um milagre.
O que quero eu dizer com obra completa? – perguntam alguns – eu passo a explicar, mas só alguns me podem entender: todos os que já escutaram o Allegretto da sétima sinfonia de Beethoven. Quem acha que deve ser acrescentada mais uma nota a esse andamento? Quem gostaria de retirar um instrumento? Ninguém. É uma obra completa. Inicia, evolui, prossegue, descansa, explode, termina. Várias fases, diferentes momentos, mas sente-se como uma só. Nunca um filme português me fez sentir como um só. Há sempre algo, uma falha aqui, um esquecimento ali, um pormenor por trabalhar acolá. Por isso, espero pacientemente um milagre que me proporcione o merecido descanso. Espero a obra completa, que funciona como uma só peça mesmo sendo composta por dezenas de mecanismos interiores. Ritmo, imagens, sons, palavras, olhares, unindo-se numa dança perfeita que, caso fosse música seria interpretada com emoção por uma Wiener Philharmonike.
Sou ateu, mas confesso que ainda espero por um milagre.

sexta-feira, junho 04, 2004

Sobre respeito e cinema

Respeitem-se todos os filmes. Todos! Respeite-se quem tentou escrever, realizar, e montar um filme. Respeite-se quem tentou mostrar em menos de duas horas um processo que na vida real dura anos. Respeitem-se os autores, as personagens, as mudanças, os conflitos. Respeitem-se os argumentos, bons ou maus. Respeite-se quem pretende contar uma história. Respeite-se quem partilha. Só não me respeitem a mim.

Something’s Gotta Give

El Corte Inglês. Meia-noite e trinta. Uma sala de cinema vazia. Uma grande tela branca, acordes de música suave. Dezenas de lugares desabitados mas habituados a levar-nos em viagens aos locais mais inesperados. Alguém tem que ceder, porque uma sala de cinema desocupada é um atentado à arte. Até o filme mais mediano nos transporta para um lugar que não é o nosso, onde nunca estivemos, por vezes, para além da nossa imaginação; dos nossos sonhos; do nosso conhecimento.
As luzes da sala baixam lentamente; um convite afinal aceite por cinco pessoas. A tela pode agora encher-se de ficcionais misturas de Vermelho, Verde, e Azul. A viagem vai começar. É inevitável e necessário: alguém tem (sempre) que ceder.

quarta-feira, junho 02, 2004

Magnolia

Então o faraó mandou chamar Moisés e Aarão e disse-lhes: “Peçam ao Senhor que afaste as rãs de mim e do meu povo e eu deixarei que o vosso povo vá oferecer sacrifícios ao Senhor.”
Êxodo, 8

Animal curioso, a rã. Tanto serve para libertar povos como remorsos.

Mortes no cinema

O primeiro que me afirmar possuir um projecto para catalogar todas as mortes nos filmes vai receber, da minha parte, pena. Projecto impossível, quando tanto se morre no cinema. O abandono final já foi retratado de todas as formas e feitios. Mas a morte mais perturbadora de sempre ainda se encontra no pódio, talvez para sempre inigualável. Danny a morrer afogado, em frente ao olhar gélido de Ellen em Leave Her To Heaven de John Stahl. De arrepiar.

terça-feira, junho 01, 2004

Um verdadeiro amante de cinema

É aquele que ao estar cinco minutos atrasado deita o bilhete fora.

Cambada de zarolhos

O cineblog publicou uma lista das supostas 100 mulheres mais belas de sempre. Não sei qual a fonte de onde veio a lista. Das virtudes não foi de certeza. Cambada de zarolhos que deixou de fora as três mulheres mais belas de sempre. A saber, Kim Novak, Gene Tierney, e a morena do 10º Química que já não me recorda o seu nome.

Diálogos cinematográficos

Os amigos, amantes de cinema, detêm uma interessante forma de conversar sobre a sua paixão quando se cruzam nas bilheteiras. Não falam de títulos, mas sim de autores. Segue transcrição de conversa típica:
- Vais ver o Almodôvar?
- Não, hoje não me sinto com essa disposição. Fui ontem ver o Kaufman.
- Muito bom, não?
- Muito mesmo. Vou ver o Petersen.
- Boa sorte.
Risos de ambos.
- Que vais ver?
- Almodôvar
- Está na lista.
- Então vá, fica bem.
- Até à próxima.

Existe sempre a próxima. Existem sempre autores. Mas na sala só o título conta. Os autores são material para o exterior, e para o posterior.

Almodóvar, 1

Sinto que existe por aí muita dificuldade de escrever, honestamente, sobre La Mala Educación. Tenhamos calma. Eastwood realizou Blood Work; Philip Kaufman realizou Rising Sun; Scorsese realizou Gangs of New York; e até Altman realizou Dr. T & the Women. Tenham calma.

segunda-feira, maio 31, 2004

Pensamentos soltos, 3

Uma má (auto) educação fez-me descobrir Almodôvar tarde.

Inovações tecnológicas

Lembro-me!
Quando algo nos marca não se esquece. Tinha doze anos e a partir daquele dia Tom Hanks (a.k.a. Josh) seria para mim o maior tanso da história universal.
Sim, eu queria um lugar de topo numa firma de brinquedos; sim, eu queria experimentar os divertimentos mais radicais dos parques de diversões; e, Elizabeth Perkins, senhores! Ai, Elizabeth Perkins! O quanto eu desejei encontrar uma máquina Zoltar! Sonhei encontrar uma: sonhei ser Big. E depois aquele tanso, Tom de seu nome, renegando tudo para voltar à adolescência, às borbulhas, à sala de matemática, à doce morena do 12º ano inatingível. Tanso! Burro!
Colocava o filme já gasto no antigo leitor Betamax, e sempre que se dirigia pela segunda vez à máquina dos desejos eu gritava: Não! Por favor, não! ... Tanso!

Big foi o filme que me fez admitir as maravilhas do formato DVD. Quando vejo o filme em DVD, Tom Hanks deixa de ser um tanso, tornando-se antes um verdadeiro herói. Isto do digital tem muito que se lhe diga.

domingo, maio 30, 2004

Tarantino, 1

O artigo de jornal debruçava-se sobre Kill Bill Vol. 1. O jornalista apontava o objecto fetiche recorrente nos filmes de Tarantino, a mala. Escrito isto, prova-se que o jornalista estava a milhas de distância do resultado certo da sua reflexão. A resposta estava, afinal, um pouco mais abaixo dos joelhos. Claro que um jornalista de cinema nunca olha para baixo.

Para um leitura correcta da continuação deste post é fundamental seguir os seguintes passos, abaixo descritos:

1- Erguer o corpo mantendo-se de pé
2- Levantar todos os dedos dos pés
3- Tentar inclinar-se para a frente
4- Não cair (ou cair, caso seja também um fetiche)

Os pés são fundamentais para o equilíbrio da figura humana, e é avaliando o gosto, ou repugnância, que cada um demonstra por tal parte do corpo humano que podemos avaliar o quão equilibrado se é. Quentin não é muito equilibrado. Felizmente.

sábado, maio 29, 2004

O dia depois de amanhã

Será igual ao dia de hoje. Igual ao que virá depois, e depois, e depois. Até quando? Impossível saber quando se está, actualmente, no meio de uma idade da neve.

Alguns anos atrás os blockbuster eram gelados, o que os tornava maravilhosos. Olhar para as águas geladas de Jaws ou para o Delorean glacial de Back to the Future após mais uma viagem no tempo era olhar para algo fascinante. Era olhar para um bloco de gelo. Todos, os que olhávamos sabíamos que estava um bloco de gelo à nossa frente, reconhecível à primeira vista, sem necessidade de análises ou raciocínios mais profundos. Porém, quem se desse ao trabalho de limpar a primeira camada de neve sobre o gelo, podia ver o seu interior. Lá dentro, aprisionados, a humanidade, o amor, o nazismo, o sofrimento, e muito mais. Cativos na eternidade, esperando ser descobertos.

Hoje em dia, os blockbusters são apenas feitos de neve. E por mais que se escave não há nada que mereça ser encontrado. Assim é, assim será durante esta idade da neve.

O dia depois de amanhã será igual ao dia de hoje. Igual ao que virá depois, e depois, e depois. Mas sempre com alguns pequenos pedaços de granizo a caírem aqui e ali.

sexta-feira, maio 28, 2004

Pensamentos soltos, 2

A pipoca, da sala de cinema, produz o efeito contrário à maçã do Jardim do Éden.

Pensamentos soltos, 1

Chamam muitas vezes génios a certos realizadores e argumentistas.
Eu prefiro acreditar que são apenas pessoas mais atentas.

Kaufman, 2

Gosto de olhar os filmes de Kaufman como um Raging Bull de Scorsese com a estrutura narrativa baralhada.

Kaufman, 1

Todos os argumentistas colocam um pouco de si nos filmes. Charlie Kaufman coloca-se totalmente.

Numa conversa de café, em local e data esquecidos, alguém que também esqueci disse um dia: - É brilhante, cheguei à conclusão que Donald não existe, Charlie e Donald são a mesma pessoa.

De facto em Adaptation, Charlie e Donald são a mesma pessoa, mas não ficamos por aqui. Charlie é Craig em Being John Malkovich, Charlie é Chuck em Confessions of a Dangerous Mind, e em Eternal Sunshine of the Spotless Mind Charlie é Clementine e Joel, não deixando de ser curiosas as iniciais de Clementine Kruczynski. Kaufman espreme-se a si próprio e o sumo que dele extrai assume a forma das suas personagens, sempre perdidas, sempre desajustadas, mas sempre na procura do mesmo objectivo: o amor de alguém. Esta é a razão pela qual a fórmula de Kaufman não se esgota. Leio críticas e análises aos guiões de Charlie que apontam como sucesso a sua forma de baralhar as cartas colocando o espectador no centro de um labirinto de onde não sabe sair. Não. Kaufman não faz isso. Houvesse um labirinto e todas as suas paredes seriam de vidro quebrável, e onde é possível de qualquer ponto observar o nosso objectivo, a saída que é muitas vezes uma nova entrada para o eu. Podemos contornar os caminhos para lá chegar, ou simplesmente partir o vidro. Há em tudo, uma certa dose de risco.

A procura do amor é sempre um labirinto de vidro. Logo, quando Kaufman se coloca nos filmes, quando coloca a sua jornada, acaba por transportar-nos para um local que nos é familiar, já conhecido, e que também se encontra baralhado e disperso nas nossas memorias mais remotas. Os filmes de Kaufman são um puzzle, que é também o nosso próprio puzzle. Enquanto desvendamos as suas estórias, na sala escura de um cinema, alinhamos também as peças do nosso jogo. Kaufman sabe isto, porque é igual a todos nós, porque de alguma forma todos somos idênticos. A diferença está naqueles que o admitem, como Charlie.

Deixamos a sala satisfeitos porque descobrimos algo já esquecido. Confusos, é certo, mas reencontrarmo-nos connosco nunca é um processo dócil. Deixamos a sala com essa mensagem na mente: que as memorias não devem nunca ser apagadas.

Já dizia Donnie em Magnolia: Podemos cortar com o passado, mas o passado não corta connosco

quinta-feira, maio 27, 2004

Para que se saiba,

David Mamet, Walter Murch, e Robert Mckee vão ocupar muitos dos posts deste blog.
Fica desde já o aviso.

Alguém disse um dia:

Não posso dar-me ao luxo de ir ao cinema. Emociona-me muito.

Just a Kiss?

Um beijo nunca é apenas um beijo. O ser humano gosta de categorizar os tipos de beijos: de olhos bem fechados; apaixonados; fugidios; franceses. Mil? Dois mil? Perde-se a conta quando se tenta contar. Quem descobre um que seja igual que se levante, ou cale-se para sempre. São todos tão diferentes, tão únicos. Acreditar que um beijo é apenas um beijo é acreditar numa ilusão.

Este blogue, acredita que um beijo é mais que um beijo. Mesmo assim, este blogue é sobre a ilusão. Uma ilusão que também é uma paixão. É fazer amor no interior de uma sala escura. É copular com imagens e sons. É dar à luz o resultado dessa união inquietante. Este blogue é sobre cinema.